23/03/2011

Brasil X Itália

Agora que faz mais de uma semana que voltamos para a Itália, consigo escrever friamente sobre a experiência de visitar a pátria como turista e ao mesmo tempo de deixá-la para voltar à rotina.

Quando chegamos no Brasil fomos surpreendidos por muitas situações diferentes das que estávamos acostumados. Por aqui, ouvíamos e líamos nos jornais matérias sempre muito otimistas sobre o nosso País e ficávamos muito felizes ao saber que em poucos anos o Brasil poderá ser considerado uma grande potência mundial, ainda que com sérios problemas de desigualdade social e educação. Estávamos esperando muita evolução e crescimento em São Paulo, mas sem levar em consideração que, na maioria das vezes, essa transformação  econômica vem acompanhada de baixa qualidade de vida.

A verdade é que, em nosso ponto de vista, ou as coisas pioraram neste quesito ou eramos tão 'bitolados' que achavamos normal viver para trabalhar, sem ter tempo para família e diversão. Em nossa realidade valia a pena para ter ascensão profissional. Ao encontrarmos nossos amigos percebemos que hoje se trabalha ainda mais do que há três anos e que o tempo para fazer o que se gosta tem se tornado cada vez mais escasso. Lógico que não existe o certo ou o errado, já que cada um vive da maneira que se sente feliz.

Além disso, nossa segunda decepção veio com  a pouca infraestrutura de São Paulo: revivenciamos o drama das enchentes, já que tivemos que cancelar diversos compromissos porque até uma simples chuvinha fazia parar absolutamente tudo. Não preciso nem citar a questão da poluição. Em Milão as pessoas reclamam do índice de poluição e quando ultrapassam o limite ideal, os cidadãos ficam impedidos de sair de carro. Não sei se antigamente São Paulo era assim e eu não me dava conta ou se realmente piorou e muito. E os preços? Como eu sempre falo: com €200 faço uma compra do mês recheada, já no Brasil com R$ 200 não se compra nem arroz e feijão. Para viver em São Paulo é preciso ser muito capitalista e entrar nesse ritmo de trabalho frenético, ao contrário não se vive, sobrevive. O único problema é que se você tem um filho e trabalha como um "louco" terá que delegar para a Babá a responsabilidade de educá-lo.

Quando viemos para a Itália, nossos objetivos principais eram fazer a cidadania, adquirir experiência de vida - que seria consequentemente levada para o âmbito profissional -, ir para a Inglaterra com a finalidade de estudar inglês para quando voltassemos ao Brasil sermos mais valorizados e bem remunerados pelo mercado. Esses foram  os motivos que impulsionaram a nossa suposta aventura pela Europa. Agora que fomos ao Brasil, nos sentimos um pouco 'em crise' porque notamos que vários dos valores que adquirimos no decorrer de nossa vida têm mudado aos poucos. Hoje valorizamos muito o "viver bem" e não somente a carreira e um salário alto. Aprendemos que podemos ser muito felizes tendo uma vida simples, sem ter o salário top-top; que precisamos ter conforto, mas que o conforto é relativo. O imprescindível é poder viver, viajar, comer bem, ter união, educar nossos filhos com valores um pouco diferentes daqueles impostos por uma sociedade altamente capitalista. 

Por tudo isso, vivemos uma crise de valores e vontades, vivemos o caos interno, pois apesar de tudo é no Brasil que estão as pessoas que amamos e que infelizmente passamos pouco tempo juntos. Estamos deixando de ver nossos irmãos e sobrinho crescerem, deixando de estar com nossos pais com frequência e isso é o que nos faz sentir down tantas vezes. Neste momento estou me dando conta que a Erica e o Marcelo que saíram do Brasil em 2008 já não são mais os mesmos. Se hoje temos como projeto ir para Londres estudar inglês não é somente para poder ganhar mais do que antes, mas sim para adquirir uma outra experiência de vida e porque simplesmente gostamos da língua. Quem sabe o retorno financeiro venha, mas como consequência e não como meta principal, porque o foco hoje é ser feliz o máximo possível. 

Nem todos sabem, mas nos três primeiros dias depois que voltamos fiquei um pouco depressiva e o único motivo pelo qual me senti assim foi a distância da família. No dia em que desembarcamos na Itália, nos questionamos muito, mas devo ser sincera que a única razão dessas dúvidas foi o vazio que a ausência de nossa família causa.

Sobre a profissão de jornalista, tenho que assumir que não é fácil estar distante. Preciso encontrar a solução para fazer algo mais próximo à área de comunicação, mas enquanto isso tento não sofrer, pois sei que com iniciativa, dedicação e paciência chegarei lá. Aliás estou começando a entender finalmente que trabalho não é um fim, mas sim um meio. Nunca deixei de conquistar algo a que me propus, por isso não desisto de estudar a lingua italiana e de exercer sempre meu olhar jornalistico, mesmo que em alguns momentos eu prefira não viajar sozinha em meus pensamentos, pela simples razão de que são capazes de enlouquecer qualquer ser humano.

Aliás, fico por aqui antes que você também comece com a pirar!

Erica Ritacco

5 comentários:

Kelli disse...

Tem uma frase atribuida ao Tom ou a Vinicius, já não lembro, que diz: "viver fora é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom". Pra mim, ela é perfeita pq resume exatamente isso tudo que vc acabou de dizer.
Força na peruca!
Bjosss

BIA disse...

Oi Érica!!!
Tudo é muito relativo mesmo, e não tem como prever determinadas coisas, só vivendo mesmo, gosto muito da citação de Milan Kundera no livro "A Insustentável leveza do Ser" em que diz: "Em trabalhos práticos de física, qualquer aluno pode fazer experimentos para verificar a exatidão de uma hipótese científica. Mas o homem, porque não tem senão uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de experimentos, de maneira que não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a um sentimento." pois é complicado... a familia em um lugar e vocês em outro, mas tudo tem seu tempo e hora certa oara acontecer e assim as coisas vão se realizando, ainda acho que viver na EUROPA é muito melhor do que no BRASIL, mas nem tudo é como a gente quer né?
Bacio
Bia

heloisa disse...

Erika, você resumiu super bem o que tantos estrangeiros sentem ao viver no exterior. Esse conflito eu também vivo há tempos; mas acho muito importante esse olhar novo que adquirimos em relação ao nossa país e a nossa cidade. Eu também só tive noção do que é ter realmente uma boa qualidade de vida depois de ter vindo morar na Itália, antes achava normal viver em lugar caótico, poluído, competitivo e para piorar tudo, caro para caramba. Hoje em dia não consigo mais entender esse tipo de vida... como você mesma escreveu. A vida não é só trabalho, ganhar dinheiro e pagar contas, como nos ensinaram a viver na nossa metrópole; é isso e muito mais, pois qualidade de vida, saúde, lazer influenciam diretamente no nosso bem estar. Acho que um dia se eu voltar para o Brasil não será mais para morar em São Paulo, mas talvez em algum lugar mais tranquilo onde a vida venha antes de todas as coisas materiais. Temos que passar esse valores para as pessoas que conhecemos e que são sugadas por esse esquema diariamente, eu pelo menos tento fazer sempre isso quando converso com meus amigos e família, tento dividir esse pouco que aprendi aqui, que na verdade é tanto. Logo logo esse teu mal estar vai passar, é normal, você vai ver. Beijos

Valéria disse...

Oi Érica!
A distancia da família nossos laços mais primários é sempre um ponto nevrálgico de qualquer ser humano. Ter vivido aqueles momentos deliciosos devem ser pensados e pesados como uma renovação de suas energias positivas para sua saúde física e mental. Relaxe e voltando a seu dia a dia você vai perceber que está lutando para o melhor pra você, que está para acontecer. Beijão!

Dentro da Bota disse...

é um ponto de vista interessante. Realmente o imigrante sempre sofre com o "retorno as origens" e sempre rola um certo conflito. Gosto muito da ideia de Sayad "la doppia assenza", enquanto encontramos o novo aqui, o nosso mundo de origem muda... bom é um assunto longo, mas muito interessate.

Saluti di Roma
Gioconda!