21/06/2011

Trabalhando na Itália

Existem algumas experiências negativas sobre a vida na Itália que nem sempre menciono a não ser com pessoas muito próximas, mas desta vez decidi compartilhar uma dificuldade que encontro aqui, por acreditar que quem tem a intenção de morar na Itália, deve saber que nem tudo são flores.
O tema que abordo hoje é básico: TRABALHO! Contarei a minha história para ilustrar a realidade de muita gente que conheci por aqui, entre estrangeiros e italianos.
Quando cheguei em Milão fiz duas entrevistas e em um mês eu já estava trabalhando. Na verdade fui convocada, pela  empresa IVRI, para uma entrevista. Após ser aprovada me pediram para ir à outra entrevista na Siemens (cliente da IVRI), onde tive que superar alguns testes e ser entrevistada por cinco pessoas simultaneamente. Naquele momento admito que eu falava mal italiano e era insegura quanto à língua, por isso me preparei para a entrevista tentando memorizar o que dizer e não esquecer as conjungações verbais. O sacrifício durou cerca de 40 minutos e apesar de estar concorrendo com quatro italianas e uma Moldava, acabei conseguindo a vaga.

Situação 1:
Acontece que no meio do caminho me pediram o documento "idoneità alloggiativa". Esse documento mostra quantos metros quadrados tem a sua casa e quantas pessoas vivem lá. Infelizmente eu não podia fazer tal documento, pois era necessário apresentar no comune o contrato de aluguel registrado. O proprietário da minha residência não quis registrá-lo para não pagar impostos. Sem empregos fixos e contrato de trabalho indeterminado ninguém queria alugar casa para a gente, ou seja: a empresa me pedia aquele documento para me contratar e para isso eu precisava do contrato de aluguel registrado. Para ter um contrato de aluguel registrado eu precisava de um emprego com contrato indeterminado. Moral da história: Relaxa e Goza, como diz a Marta Suplici.

Em meio a essa burocracia ridícula eu parecia uma marionete, andava de um lado para o outro em busca de solucionar o problema.  O detalhe é que quando me telefonaram dizendo que eu tinha sido aprovada, expliquei que teria todos os documentos exceto a tal declaração e que como eu havia recebido uma proposta para trabalhar no IKEA, onde não exigiam o documento, eu precisava de uma resposta decisiva sobre a contratação,  caso contrário perderia os dois trabalhos. O chefe me garantiu que não teria problema e meia hora depois que liguei no IKEA dispensando a vaga, o RH da IVRI me telefonou dizendo que sem a declaração não me contrataria. Expliquei meu caso exaustivamente, mas em vão.

No dia seguinte fui até a empresa sem avisar e pedi para falar com o responsável que tinha me dado a palavra dele. Me lembro que sentamos numa imensa sala de reunião e ele disse "sinto muito, mas eles não querem aceitar". Eu virei uma fera e com meu italiano curumin olhei nos olhos daquele infeliz e disse: "ótimo, dispensei um trabalho porque você havia confirmado e agora? Você deu sua resposta ontem e agora o que eu faço? Quem pagas as contas?". Depois de quinze dias ele resolveu e eu fui contratada, mas não mais para a Siemens e sim para a Banca Bilbao, porque o Banco precisava de alguém com língua madre espanhol. Sim, você entendeu! O chefão me deu prioridade para trabalhar com aquele cliente porque no BRASIL fala-se ESPANHOL!

Situação 2:

Comecei a trabalhar e aos poucos melhorar o italiano. Me lembro que eu chegava em casa todos os dias com uma dor de cabeça terrível por tentar compreender o que eles diziam, principalmente porque a pronúncia é diferente nas diversas regiões da Itália. Eu aproveitava para estudar a cada segundo livre. Até que um dia me pediram para vir trabalhar na BBVA (grupo Bilbao), onde estou há dois anos. A IVRI renovou meu contrato duas vezes e na terceira, ao invés de fazer um contrato indeterminado, previsto pela lei, me obrigaram a assinar a carta de demissão, para ser contratada por outra empresa, a Excalibur, que me daria benefícios mais interessantes. A proposta parecia ser melhor, se não fosse pelo fato que após alguns meses decidiram não pagar meu salário. Por falar em salário, muita gente que eu conheço começa a trabalhar sem saber quanto receberá.

Recapitulando...a IVRI me dizia que embora continuasse gerenciado a BBVA, não era mais a responsável por meu pagamento. Já a Excalibur dizia que não fazia a menor idéia de quando me pagaria, outras vezes me falava que tinha feito o pagamento mas que eu deveria esperar, outras que o banco teve problemas ou que quem fazia os holerites estava de férias, enfim... Paciência acaba e a minha demorou para terminar.

Somente depois de dois meses e meio chamei o cliente e lhe informei que se não me pagassem naquela semana, eu iria embora. Naquele momento agendaram uma reunião onde a BBVA ameaçou cancelar o contrato. No dia seguinte a Excalibur me trouxe o cheque e fui obrigada a ouvir  a frase "antes tarde do que nunca". Depositei o cheque após quinze dias e voltou. Esperei mais quinze dias e finalmente após reapresentação, o dinheiro caiu. A IVRI informou à BBVA que a partir do mês seguinte eu passaria a trabalhar com outra empresa e que a Excalibur me pagaria os meus direitos. Pagou para você? Imagine para mim! 

Situação 3:
Em novembro fui contratada pela Project Services, sempre prestando serviços para a BBVA, com gerenciamento da IVRI. Em teoria eu deveria estar feliz com a mudança, mas ao ver meu novo contrato percebi que reduziram € 400 do meu salário mensal e tiraram o 14o salário. Quando conversei com a empresa, a resposta que obtive foi: "pelo menos agora você vai receber, pouco mas vai". Pois é, acabei assinando o contrato para não ficar sem trabalho e no mesmo momento comprei nossa passagem para o Brasil. Avisei a BBVA que em dois meses eu pediria demissão, explicando as razões e eles me disseram para eu não me preocupar, que resolveriam tal situação. Deixei claro que não tinha a menor intenção de voltar a trabalhar com IVRI e Cia.

Quando voltei do Brasil, a BBVA cancelou o contrato com a IVRI e me contratou por outra empresa, mediante a condições impostas pela BBVA. Moral da história:

1) as empresas raramente te contratam diretamente. Cultura do outsourcing de merda;
2) Nunca recebi meus direitos. Eles precisam me pagar € 4 mil;
3) Estou correndo há meses atrás de advogados particulares e do sindicato. O sindicato joga do lado da empresa, diz que eu tenho que esperar cinco meses e depois mandar uma carta registrada solicitando o pagamento. O Advogado privado quer um adiantamento de mais de mil euros e não me dá nem ao menos um percentual de vitória para a causa, ao contrário disso, diz que se não conseguir provar que a IVRI está por traz de toda essa palhaçada, serei eu que pagarei o advogado deles;
4) Neste quesito estamos abandonados, sem auxílio, à deriva. A impressão que tenho é que a lei está do lado dos corruptos. Não encontrei nenhum advogado disposto a ajudar e provavelmente eles sairão ilesos e eu sem dinheiro;
6) Sabe qual é o maior problema do seu problema? É que ninguém tem nada a ver com isso!

Essa foi minha experiência com trabalho por aqui. Talvez eu não tenha tido sorte, mas posso dizer que conheci muita gente em situação parecida. Essa é uma das coisas que me faz sentir vontade de voltar ao Brasil, país onde além de ter minha profissão consigo lutar por meus direitos com mais facilidade.

7 comentários:

Lili Detoni disse...

Oi, minha lindaaaa! Estava com saudades... Espero que vc consiga resolver seus problemas com essa parte chata que existe em morar em outro país... aqui na minha cidade tbm não está nada bem, com uma corrupção absurda envolvendo o prefeito, a primeira dama, o vice prefeito, e por aí vai! Estou envergonhada dessa política brasileira, além de estar morrendo de vergonha do papelão que e Dilma fez, sobre a libertação do criminoso italiano... sei lá, viu... Mas, o que importa mesmo, é que dia 9 estarei em Roma, respirando ares do verão!
Bjossssssssssss!
Lili.

Juliana Rossa disse...

Oi Érica!
Será que no Consulado Brasileiro eles não podem te ajudar com advogado?
Envia um email para eles, contanto toda essa situação.
Existem muitas agências na Itália que exploram estrangeiros e, até mesmo, italianos.
Realmente, é muita sacanagem!
Mas vc é forte e vai superar isso tudo!
Bjs!

Erica Moreira disse...

Lili também fiquei putaça com a atitude da decisão do Supremo Tribunal Federal, antecipada pela decisão do Lula. Bem vinda à Itália e me avise quando estiver em Milão.

Juliana, digamos que hoje meu stress sobre isso está cada vez menor, mas que já esperneei muito de raiva. Não tirei nem sequer um dia de férias em um ano, nunca peguei malattia ou cheguei atrasada. Hoje admito que não abro mãos dos meus direitos por nenhuma empresa. Antigamente não queria deixar a empresa em situação de dificuldade e vinha trabalhar até doente, mas isso acabou. Não me refiro somente ao momento atual, mas em geral.

Vou tentar falar com o Consulado. Vamos ver.

baci

Anna Karine disse...

Realmente, trabalho por aqui é dor de cabeça. Primeiro, é coisa rara (se nao impossivel) encontrar um trabalho remunerado decentemente. Segundo as empresas se encontram num momento economico muuuito ruim. Quem nao faliu, ta perto ou ta sofrendo pra continuar com as portas abertas. A muito tempo desisti de procurar um emprego.Decidi trabalhar junto com meu marido no nosso restaurante.
Espero que vc consiga ter seu dinheiro. As vezes, demora mas chega!

Erica Moreira disse...

Olá Anna Karine,

Seja bem-vinda ao meu blog, aliás gostei do seu e das fotos. São ótimas. Você mora em que região?

Bem, o mundo do trabalho na Itália é uma vergonha. As vezes eu penso que na hora em que eu quiser, pego as malas e vou embora e os italianos? Será que os jovens que desejam crescer profissionalmente terão que sair do seu país? Quem ficará aqui?

Para resolver meu problema já fiz contato com advogados, sindicato e consulado brasileiro, mas em vão. Afinal de contas não é problema de ninguém, portanto será mais uma empresa a sacanear os cidadãos por ai.

Bj, Erica

Anônimo disse...

Oi Erica,
parabens para seu blog! eu gostei muito! è verdade aqui na Italia è muito ruim encontrar trabalho e ser pagado dignamente, a maioria das veces è dificil ser pagado. Eu tambem tenho este tipo de esperiencias e voce ve que quem trabalha muito nao è remunerado decentemente. Ao contrario.
Tenho 23 anos e estou pensando seriamente de ir morar fora da italia. Serà que no Brasil è melhor? ;-)
Um beijo,

Carla

Erica Moreira disse...

Oi Carla,

Você é italiana?

Eu sinceramente acho que a Itália está em um péssimo momento no quesito crescimento profissional e mercado de trabalho. Percebo nitidamente que o italiano em geral não tem mais estímulo para estudar ou crescer profissionalmente. Por um lado isso é muito ruim porque ele passa a aceitar essa exploração e as empresas se aproveitam cada vez mais dos trabalhadores. As pessoas que lutam por um crescimento geralmente vão para o exterior e a Itália perde talentos, enquanto os outros países saem ganhando. Por outro lado o italiano valoriza a qualidade de vida, o comer bem, as férias, etc. É por isso que ainda estamos aqui, pela qualidade de vida.

Olha, posso dizer que o Brasil melhorou muito. No Brasil as empresas estão cada vez mais valorizando as pessoas que fazem faculdade, pós-graduação, falam línguas, etc. São diferenciais que influenciam diretamente no salário que você ganhará. Só que a questão é que tudo no Brasil custa caro demais. É preciso ganhar muito mesmo para poder ter uma vida confortável. Eu sou paulista e posso dizer que não conheço ninguém desempregado por lá, mas ao mesmo tempo as pessoas trabalham tanto que não tem tempo nem para cozinhar, para viajar, para passear, enfim não conseguem ter uma qualidade de vida decente. Prós e contras!

bjs