27/10/2013

A Cura de Schopenhauer


Escrito por Irvin D. Yalom, o livro A Cura de Schopenhauer traz para o leitor uma história que harmoniza filosofia e terapia. A história começa quando o psiquiatra Julius Hertzfeld descobre, em uma consulta de rotina, que está com câncer e que tem somente um ano de vida. No início Julius fica desesperado, sem saber como usufruir o tempo que lhe resta. A princípio, enfrenta muitas crises de desespero e fica completamente perdido, pois diz que todos sabemos que um dia morreremos, mas quando alguém te dá uma data como previsão, tudo muda. O autor abre o livro com a seguinte frase:


"Cada vez que respiramos, afastamos a morte que nos ameaça. 
(...) No final, ela vence, pois desde o nascimento esse é o nosso destino e ela brinca um pouco com sua presa antes de comê-la.
Mas continuamos vivendo com grande interesse e inquietação pelo maior tempo possível, da mesma forma que sopramos uma bolha de sabão até ficar bem grande, embora tenhamos absoluta certeza de que ela vai estourar."


Em um segundo momento, Julius resolve que levará sua vida exatamente como fazia nos anos anteriores e decide procurar antigos pacientes para descobrir se de algum modo conseguiu ajudá-los "Será que você foi realmente, verdadeiramente, útil para seus pacientes? Talvez só tenha ajudado os que iam melhorar de qualquer jeito"  

Decide então telefonar para Philip Slate, um ex paciente que era totalmente obcecado por sexo e que, embora seu tratamento tivesse durado três anos, não tinha sido capaz de curá-lo. Ao encontrar Philip, o psiquiatra fica surpreso com o fato dele ter se curado de sua obsessão com a ajuda da filosofia de um dos filósofos mais pessimistas da humanidade: Arthur Schopenhauer. Philip estava curado da necessidade do sexo, mas tinha se tornado uma pessoa ainda mais fria, racional e isolada. Sempre solitário, havia decidido que seria orientador filosófico e que usaria Schopenhauer para curar outras pessoas, como tinha acontecido com ele. Julius propõe encontrá-lo outras vezes para poder compreender sobre sua cura e nota que para que Philip possa ajudar outras pessoas, ao invés de prejudicá-las, precisa aprender a se relacionar com os outros. Philip pede sua ajuda para orientar seu trabalho e Julius sugere que em troca ele frequente o Grupo de terapia, o qual coordena algumas vezes durante a semana. 

Philip passa então a participar das sessões, mas fica muito isolado durante os diálogos e discussões com o Grupo, participando somente a partir dos pensamentos de Schopenhauer, sem nenhum tipo de envolvimento humano. A chegada de Philip faz com que o Grupo discuta questões essenciais para o desenvolvimento de todos. Se antes muitas discussões eram superficiais, agora passam a tratar de questões básicas como perdão, erros, arrependimentos, crescimento pessoal, entre outras coisas. 


A obra consegue, ao mesmo tempo que nos apresenta os pensamentos de Schopenhauer, fazer com que o leitor pense sobre sua própria vida. Não se trata de concordar com todos os pensamentos de Schopenhauer, pois muitos deles são de um pessimismo absurdo, mas se trata estimular o ato de pensar. Esse foi um dos livros que mais me incomodaram por apresentar idéias que vão contra meu modo de interpretar a vida, mas ao mesmo tempo foi um dos que mais me fizeram pensar sobre decisões, a importância da infância e juventude, sobre nossa necessidade de querer sempre mais e nunca termos a sensação de saciedade por muito tempo: "O que é a vida senão um ciclo infinito de querer, satisfazer, entediar-se e querer de novo" 

Schopenhauer consegue, por meio de sua filosofia, nos fazer perceber que muitas vezes perdemos tanto tempo planejando o futuro, que esquecemos que a vida é o momento presente. Ele nos incentiva a viver o agora, ao invés de viver na esperança de um bom futuro. 

É, sem dúvida, uma obra que eu indico porque acredito que consegue cumprir sua missão de modo muito simples. 

Outras frases de Schopenhauer que me chamaram a atenção:

"É melhor não dizer nada do que ter um diálogo estéril e conversas com os bípedes...Quase todo o contato com os homens é uma contaminação, uma violação. Chegamos a um mundo habitado por uma classe de criaturas lastimáveis à qual não pertencemos. Devemos estimar e honrar os poucos que são melhores, nascemos para instruir o resto, não para nos associarmos a eles"

"O conhecimento é limitado. Só a estupidez é ilimitada"

"De repente, o homem, surpreso, se vê existindo após centenas e centenas de anos de não existência. Ele passa por um período, depois vem outro período igualmente longo que ele vai deixar de existir" 

"A relativa ideia de felicidade é o que se é, o que se tem e o que se é para os outros". Aqui Schopenhauer sugere que nos fixemos apenas no primeiro item, não no que se tem ou no que pensam de você, porque não podemos controlar essas coisas, elas podem e serão tiradas de nós, da mesma forma que o envelhecimento vai levando a beleza. 

"Possuir acaba nos possuindo"

"Herdei de meu pai a ansiedade que abomino e combato com todas as forças (...) Quando jovem, me torturava com doenças imaginárias (...)Na época em que estudava em Berlim achei que estava tuberculoso (...) Tinha pavor de ser obrigado a fazer o serviço militar (...) Saí de Nápoles por medo de varíola e de Berlim por medo de Cólera (...) Em Verona fiquei obcecado pela ideia de ter cheirado rapé envenenado. Em Manhum senti um medo enorme sem qualquer motivo concreto (...) Durante anos tive medo de cometer um crime (...) Se ouvia um ruído a noite, pulava da cama e pegava as pistolas, que estavam sempre carregadas (...) Sinto uma ansiedade que me faz ver perigos onde não há e isso aumenta qualquer aborrecimento e faz com que eu tenha enorme dificuldade em me comunicar com os outros..."

"Vista da juventude a vida é um longo futuro, a partir da velhice parece um curto passado" 
  
"A vida é um sofrimento eterno e o desejo é insaciável"

"Como somos obrigados a viver, temos que sofrer o menos possível" - frase de Parerga e Paralipomena, último livro de Schopenhauer que teve muito sucesso, após passar a vida mergulhado no anonimato.

"Consigo suportar a ideia de que poucas horas depois que eu morrer, os vermes comerão meu corpo, mas estremeço ao imaginar professores criticando minha filosofia"

"Se batermos nas lapides e perguntarmos aos mortos se querem voltar à vida, balançarão a cabeça, dizendo que não

Insiro duas outras frases citadas no livro, mas que não são de Schopenhauer

"É impossível sentirmos a realidade em qualquer sentido verdadeiro, porque todas as nossas percepções, nossas informações sensoriais são filtradas e processadas pelo mecanismo neuroanatômico" - KANT 

"A amizade é o ingrediente mais importante para uma vida feliz. Fazer uma refeição sem um amigo é viver como um leão ou um lobo"  - EPICURO
       

Conheça mais sobre o filósofo: 


3 comentários:

BIA disse...

Oi Érica!!!

Gosto muito das suas análises e dicas,estou curiosíssima para ler este livro, sabe que eu ainda prefiro os livros impressos(acho incrível as novas tecnologias, os e-books...) mas mesmo assim amo o livro tradicional em papel. Minha lista de livros e filmes só aumenta... acho que é preciso de muitas vidas para conseguir fazer tudo o que quero.

Bacio :)

ERICA RITACCO disse...

Olá Bia,

Também prefiro os livros impressos. A verdade eu adoro tê-los aqui, pegar, sentir o cheiro! No entanto, estou tentando mudar meus hábitos, pois ler no tablet é muito mais prático. Não carrego o peso de 700 páginas rsrsr

Um tablet não pesa nem 1 kg! Além disso se quer pesquisar sobre algum assunto em discussão, vai na internet (no tablet) e tem a resposta em minutos.

Sobre o livro, você vai se incomodar um pouco, mas acho que essa é a ideia.

Beijoss

Andreia Gonzalez disse...

siimmm com concordo, o cheiro de un livro bate mil arquivos numa tablet... mas a falta de espaco na mochila enquanto viajamos, há que encontrá-los em formato digital!

aqui encontrei este livro grátis, caso alguém queira baixar também: http://portugues.free-ebooks.net/ebook/A-cura-de-Schopenhauer

boas leituras!