11/12/2018

Horas tensas - Rio de Janeiro

Assim que chegamos no posto de gasolina, fui ao Mc Donalds comprar algumas garrafas de água, pois estávamos todos tensos, ainda pensando em tudo o que tinha acabado de acontecer. Chegando la o atendente nos disse que onde estávamos era muito perigoso e que eles estavam quase fechando (era umas 22 horas). Quase que ao mesmo tempo minha irma me ligou dizendo "Erica, você tem certeza desse endereço? Estamos procurando a casa mas ... aqui é ... ai Meu Deus... você vai ver quando chegar" Ela ainda não estava na casa, mas estava procurando o local. Naquela hora contei para minha sogra e começamos a rir de desespero. Para onde estávamos indo? Por que todos as opiniões do Booking falavam bem da casa? Algo estava errado? Talvez!

Depois de um tempo chegou o táxi e explicou que havia demorado pois a seguradora tinha dado o endereço errado (de uma outra cidade). Agora sò faltava o guincho para levar o carro de volta para Sampa. Passados 30 minutos o taxista nos pediu para ligarmos novamente para a seguradora, pois o guincho tinha saído com ele, estava praticamente atràs, então aquela demora nao fazia sentido. Ao telefonar, descobrimos que o guincho havia desistido pois não queria levar o carro de volta para SP porque teria que passar pela "linha vermelha". Aquela noite seria uma das mais dramáticas naquela região (vários policiais foram feridos, alguns criminosos mortos e outro presos). Naquele dia pensei ironicamente "Que sorte a nossa", mas hoje sei que na verdade tivemos mesmo sorte.

O problema é que passadas algumas horas e ligando continuamente para a empresa de seguro, descobrimos que não existia nem previsão de encontrarem um guincho, pois nenhum estava disposto a passar pela "linha vermelha" naquela noite. Decidimos então que o guincho poderia pegar o carro e levar para Sampa em outro momento, assim passados mais vários minutos vimos finalmente o guincho chegar. Entregamos a chave e fomos embora para nosso destino final.

Rodamos, rodamos e rodamos...algumas vezes víamos o taxista um pouco tenso. Acendia as luzes internas do carro e abria todas as janelas, sem falar nada. Quando finalmente abriu a boca repetiu o endereço e perguntou "você tem certeza  que o endereço é esse?". Confirmamos e ele disse "certeza absoluta?" e confirmamos novamente, então ele prosseguiu. Quando chegamos na rua, a uma hora da manha, esvaziamos o carro e tocamos a campainha para minha irma abrir. Achando estranha a demora, comecei a ligar e ela disse que estava indo abrir...

Olhamos para a parede em nossa frente e là estava um recado para entendermos onde estávamos "X9 Vacilão tem que morrer".

A tensão aumentava. Minha sogra e cunhada estavam batendo varias vezes no portão, quando minha irma me liga e diz "Erica vocês não estão aqui, estou na frente do portão..."

Como não? Começamos a colocar as malas no porta malas, todos na correria e isso incluía o taxista. Entramos no carro e verificamos o endereço mais uma vez: o nome da rua e o numero eram os mesmos, mas o bairro estava errado. O seguro passou para o taxista o nome do bairro errado e nós confirmávamos somente o nome da rua e numero...

Quando terminamos de colocar as bagagens no carro, começou a gritar de dentro da casa a voz de um homem muito nervoso. Pedimos desculpas, entramos no carro e começamos a andar com as janelas abertas e as luzes acesas. Meu Deus quando aquilo iria acabar?

Naquela hora o taxista disse que aquela parte em que estávamos era a mais perigosa de Cabo Frio e que naquele horário sò tinha na rua Policia ou Bandido e por isso ele seguia aquele esquema "luzes acesas/ janelas abertas. "A policia entra quietinha e os bandidos disparam os tiros", contou. Então a estrategia dele era aquela de sermos confundidos com bandidos ou moradores.

Corações disparados e quase não respirávamos mais. Eu sò agradecia que Matteo não estava conosco e por mais que eu quisesse, não conseguia tirar da cabeça o medo de não ver mais meu filho e minha família. A coisa toda estava tensa, muito tensa. Acho que nunca senti tanto medo, não somente eu, todos estava quase em panico.

Saímos dali, demos o endereço certo para o taxista que em contato com a seguradora havia recebido instrução de nos deixar (abandonar) no primeiro endereço, porque segundo eles era o endereço certo. O taxista desligou o telefone e  nos deu a noticia de que por ordens da seguradora precisaria nos deixar, mas como ele estava vendo nossa critica situação não faria isso. Demos a ele o endereço certo e ele foi para o Weze e GPS, mas o problema ainda estava no inicio...

...O Waze nos direcionava para estradas horríveis (favelas), ruas escuras e estranhas. Nós seguíamos em silencio com as luzes acesas e janelas abertas. Silencio e frio na barriga :(

Num certo momento entramos em uma rua desterrada, passamos por lugares terríveis e continuamos nesta estrada. De um lado carros queimados, de outro muito entulho. O lugar era apavorador, parecia "ponto de desova", mas o Waze continuava nos mandando para aquela direção. Depois de um tempo andando por ali, ligamos para minha mãe e descobrimos que ela não havia passado por aquela estrada, o motorista parou e disse "Chega, não continuo por aqui, não vou mais colocar a minha vida e a de vocês em risco. Saímos dali com o coração na mão, muito nervosos e decidimos não colocar o endereço direto da casa, ja que o Waze nos mandava fazer esse caminho insano, mas colocamos primeiro o endereço do centro da cidade e dali colocamos o endereço da casa. Eu sò pensava em chegar e ficar em segurança... ainda demoramos um pouco para encontrar a casa, pois era meio escondida. Quando chegamos as 2 e meia da manha, eu sò tinha  vontade de chorar. Estávamos seguros, finalmente.


Casa em Cabo Frio



Me lembro no meio disso tudo que havíamos comprado lanches e refrigerantes, pois na casa não tinha nada para beber e as crianças não haviam comido até aquela hora. Lembro que eu e minha sogra seguimos com aqueles refrigerantes na mão por toda a viagem aventurosa, tentando não deixar cair, pois o pessoal não tinha nem agua. A cada freada, molhávamos o carro e nos olhávamos rindo desesperadamente (e eu e minha sogra). Lembro de ela esfregando a bunda no banco para secar (agora sò risadas). O banco estava quase todo molhado, até que quando chegamos no primeiro endereço errado, aquele do X9, olhamos para os refrigerantes e Marcelo disse mais do que nervoso "deixa isso ai, pelo amor de Deus". A gente correndo risco e ainda assim tentando salvar o refrigerante.

Agora sò lembranças e risadas, mas ficamos um dia meio perdidos, pelo menos falo por mim, que não tinha reação, nem acreditava que tudo tinha acabado bem e que tínhamos tido aquele anjo taxista em nossa vida.





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