30/12/2020

2020: O ano que serà lembrado para sempre!


2019 terminou de maneira conflituosa e 2020 começou de modo inesperado, com nós três perdendo o voo de retorno do Brasil para a Italia e tendo que prorrogar as nossas férias, pois o valor das passagens novas eram surreais. Naqueles dias não entendemos o motivo de termos perdido o voo, mas hoje sabemos que precisávamos daqueles dias extras. 

Chegando no aeroporto em Porto Alegre, lembro de ter comentado com o Marcelo que eu tinha a sensação de que havíamos aproveitado tanto a nossa viagem e, até mesmo perdido o voo, porque o ano de 2020 seria difícil e exigiria muito foco de nós. Assim foi... 

Começamos o ano com a bateria recarregada, trabalhando, estudando e focados. Estávamos nos sentindo muito fortes e obstinados. Ai chegou o mês de Março e com ele descobrimos que estávamos totalmente dependentes de um inimigo que ainda hoje permanece por aqui. Tinha chegado diretamente de Wuhan na China o Coronavirus. No inicio foi considerado por tantos médicos, políticos e especialistas como uma simples gripezinha, mas em pouco mais de um mês o mundo descobriu que essa avaliação tinha sido um enorme erro. 

De um dia para o outro acordamos ouvindo uma palavra que poucos entendiam o real significado "LOCKDOWN". De um momento ao outro todas as ruas estavam completamente solitárias, as prateleiras dos supermercados vazias. O sistema sanitario da Italia entrou em colapso, a economia em desespero e as pessoas reagiam como se estivessem vivendo na Guerra. Não se encontrava no mercado pasta, papel higiênico, farinha, carne etc. A população, pensando individualmente, acabou com os stocks de comida do mercado, esquecendo-se que existiam outras pessoas que também teriam que comer e que não tiveram a possibilidade de passar horas nas filas para comprar alimentos. 

Na época, conversando com meus amigos no Brasil, Estados Unidos, Holanda, Portugal e Australia, notei que muitos deles acreditavam que se tratava de um problema da Italia, que o virus não chegaria por la. Me lembro que na Italia morriam quase mil pessoas por dia e no Brasil, muita gente estava ensaiando para o Carnaval. 

Em pouco tempo os italianos passaram a não ser mais bem vindos nos países, com medo de levarmos o virus, mas logo em seguida o mundo entrou em LOCKDOWN. 

Pela primeira vez ouvi com a clareza de um adulto a palavra PANDEMIA e aquilo doeu profundamente.

La fora, a poucos quilômetros de casa, passavam caminhões do exército carregados com corpos, pois os cemitérios já não tinham mais espaço, as pessoas não podiam se despedir dos seus entes queridos e tudo acontecia assim... muito rápido. 

Nunca vou esquecer aqueles dias de Março e Abril... nunca mais.

Ainda hoje, escrevendo esse texto, as lágrimas escorrem por uma lembrança que permanece dolorida, por tantas perdas que o mundo teve, por tanto sofrimento, por compreender que nós realmente somos apenas formiguinhas neste mundo, mas nos sentimos imortais. 

Não somos independentes como gostaríamos, mas dependemos uns dos outros sempre e para sempre. Para reduzir o contagio precisamos uns dos outros, para derrotar o virus precisamos uns dos outros, para que todos possam comer amanha, em meio a uma crise mundial, precisaremos uns dos outros. Então, passamos a compreender na pele e na pratica a importância da união. A gente não precisa conhecer os outros, a gente sò precisa se ajudar.  

2020 trouxe dor para muitas famílias e do fundo do meu coração eu sinto muito. Sinto muito por quem não pode se despedir, sinto muito por quem ficou com palavras a serem ditas, sinto muito por quem não teve tempo de dizer "EU TE AMO". Eu sinto muito!

E junto com todas as dores, descobrimos que somos mais fortes do que pensávamos, que somos mais humanos e frágeis do que sentíamos e que teríamos que nos reerguer. Não foi e não sera a primeira vez, em toda a Historia, que algo dessa amplitude acontece, sò que hoje estamos melhores, temos mais conhecimento e talvez sejamos mais espiritualizados do que os nossos antecepassados, então estamos sem duvida preparados para a superação, para a renovação e para o amor sem fronteiras. Estamos prontos para sermos mais humanos do que ontem, para valorizarmos cada instante hoje (sò temos o agora garantido). Estamos privilegiados em nossa casa, com nossos filhos, maridos, pais e amigos. Estamos privilegiados com nossos empregos, com nossas camas acolhedoras, com nossas cobertas, com a nossa comida. 

Tivemos 10 meses para vivermos próximos, mesmo estando distantes, para priorizarmos o que é prioritario: a saude, as nossas famílias. Pudemos aprender a meditar e a ter disciplina, o unico modo de continuarmos focados e nao enlouquecer com toda a incerteza. 

Em 2020 aprendemos que sempre da para ser melhor e que sempre da para estar presente, que é melhor nao deixar coisas a serem ditas, que o perdão é uma boa estrada, que a natureza é a melhor amiga, que ninguém é auto suficiente mas que podemos ser suficientes juntos.  

E 2020 foi assim: radical, triste e feliz! 

Concluo essa reflexão com um grande nò na garganta, com muitas lagrimas nos olhos e com muita, mas muita gratidão por termos sido poupados da dor da perda e por termos sido presenteados com tantas coisas boas este ano. 

2021 já esta aqui, batendo na porta... daqui a pouco ele chega, trazendo esperança de dias muito melhores, mas também estará nos cobrando o que aprendemos. E' fatal! Sejamos sempre pessoas melhores e merecedoras. 


Feliz Ano Novo para todos :) 


PS: Nos comentários deixem os seus nomes, pois caso contrário fico sem saber quem comentou  :)

22/05/2020

Surpresa de dia das mães...COVID?

Domingo, 10/05, foi dia das mães.


O dia foi delicioso, fizemos churrasco para comemorar, ganhei um presente lindo, conversamos com nossas famílias, com nossas mães, até que umas 19:30 começamos a nos sentir muito mal. Eu com forte falta de ar, febre, dor no corpo. Marcelo também estava com dores no corpo todo e febre.

Decidimos ligar no numero reservado para o COVID para nos informar sobre como proceder e para entender se poderíamos nos medicar. Eles imediatamente mandaram uma ambulância que chegou em casa em cinco minutos. A médica e a enfermeira entraram em casa como se estivessem em meio a uma epidemia de Ebola, eram muitas roupas, máscaras, luvas. A gente ve na TV mas ao vivo é meio assustador.



Matteo tinha dormido e o levamos para cima, o que foi ótimo pois no dia seguinte ele teria ficado muito mais preocupado e triste. Ali a enfermeira nos disse que seriamos levados para o hospital. Deixamos o Matteo com uma amiga e fomos, sò pedimos para irmos com o nosso carro, pois não teríamos como voltar para casa no final da consulta, até porque jà era quase meia noite.


La chegando fizemos inumeros exames (sangue, oxigenação, raio x, covid, tomamos antibiotico e soro, entre outros). A médica por um momento avaliou a possibilidade de internar os dois, o que não seria possível visto que teríamos que deixar Matteo com alguém por tempo indeterminado. Desta forma, a médica analisou os exames e viu que os glóbulos brancos do Marcelo estavam bem alterados, definindo assim por sua internação.  Eu, por minha vez, assinei um documento rejeitando a internação e voltei para casa. 


Ver Marcelo sendo levado, sem saber o que iria acontecer me deixou sem chão, sem conseguir raciocinar, sem nem menos saber como dizer ao Matteo que o pai dele ficaria longe por um tempo. Me lembrei daquele dia em que eu e Marcelo tivemos uma crise de choro pensando em como as famílias eram separadas de uma hora para outra pelos sintomas covid e eram internadas por umas três semanas antes de voltar para casa, sempre que voltassem.

La fora chovia muito, assinei minha alta, peguei a chave do carro sem conseguir pensar muito, ainda sob efeito do remédio, fui pagar o estacionamento e seguir o caminho de casa. Estava sozinha e me sentia sozinha, sem saber como seria e quando Marcelo poderia voltar.

A médica  disse que ele ficaria no minimo uma semana internado. Gelei, rezei, pedi e implorei...


Peguei o Matteo  na minha amiga e fui para casa. No dia seguinte eu não conseguia nem levantar da cama, aliàs passei uma semana muito ruim, com muita falta de ar, tosse, dor no corpo, mas graças ao Matteo eu tinha que seguir para poder cuidar dele e do basico em casa, preparar as roupas para a internação do Marcelo, que foi levada ao hospital por um grande amigo. 

O Marcelo ficou totalmente isolado em um quarto sem contato com ninguém. Ele fez muitos exames, entre os quais ressonância magnetica no Tórax e na cabeça para identificar o motivo de suas fortes dores de cabeça. Aos poucos ele foi melhorando. O resultado dos exames de covid deram negativo. Se internou no domingo de noite e saiu na quinta-feira graças ao resultado negativo e principalmente graças ao "Cara la de Cima". 

Finalmente Alta


Mesmo com o resultado dos exames, a nossa médica de família disse que poderia ser covid, que com uma carga viral muito baixa poderia não ser identificada no exame, por isso pediu para nos mantermos isolados. Ja no hospital não nos deram o mesmo tipo de orientação, disseram que não seria necessario isolamento. Nem eles sabem ao certo como proceder em um caso desses. 

Raramente adoecemos e quando isso acontece nunca é de uma hora para a outra e os dois juntos, o que faz com que eu pense que era covid sim. Pode ser somente uma infecção que tivemos, mas na atual circunstancia não importa mais. Agora estamos bem, eu ainda me canso facilmente e sinto falta de ar, mas nada que uma inalação não ajude. 

07/05/2020

Pérolas de um lockdown

O isolamento social tem se revelado o grande desafio dos ultimos tempos. Por todos os lugares sò se pensa e se fala nesta nova realidade. Tem aqueles que defendem a quarentena vertical, tem os que acreditam que somente uma quarentena horizontal ou um lockdown podem combater a pandemia e tem também aqueles que acham que é mais prudente manter tudo aberto "é melhor morrer de Covid19 do que de fome". Sao varias as opinioes e muitos os cenarios.

Como comentei anteriormente, aqui na Itàlia a nossa breve quarentena se transformou em um forte lockdown. Para quem trabalha no comércio, em bares e em restaurantes, por exemplo, a maior dificuldade tem sido sobreviver como empresa, pagar salàrios e até mesmo ter o suficiente para se manter durante esse periodo de restriçoes.

Jà para os mais sortudos, o desafio é conseguir manter o equilibrio, o otimismo e conter a ansiedade diante de toda esta insegurança. Nòs, neste momento, nos encaixamos no grupo dos sortudos e seguimos fazendo a nossa parte, buscando ser responsàveis em cada passo, em cada palavra e em cada atitude.

E é sobre uma gota dessa responsabilidade que eu gostaria de falar hoje. Eu quero registrar um dos momentos importantes para nòs durante o lockdown, algo que em dias normais da minha rotina de trabalho, provavelmente nao teria acontecido. Fizemos muitas coisas diferentes nos ultimos dois meses, mas teve uma que representou muito para mim, porque foi extremamente importante para o Matteo compreender um pouco do significado das palavras cidadania e responsabilidade social.




Aqui perto de casa (aproximadamente 200 metros) tem um bosque perfeito para fazer caminhadas. Um dia fui dar uma volta com Matteo (ele ja estava ha dois meses em casa) e nos deparamos com varios lixos jogados pelo chao (garrafas de plàstico, caixinhas de leite vazias, garrafas de cerveja, papel de bala etc). Naquele momento Matteo me perguntou se as pessoas nao assistiam jornal, se elas nao viam que jogar lixo no chao destroi a natureza, afasta os animais e faz com que o coronavirus nao và embora. Essas foram exatamente as palavras dele! Uma criança de somente 4 anos conseguiu chegar sozinho a uma conclusao que os marmanjos inuteis ainda nao sao capazes.

Entao eu sugeri ao Matteo que no dia seguinte pegassemos um saco e fossemos recolher todo aquele lixo, assim ao menos aquela parte da natureza nao seria destruida. No dia seguinte, Matteo acordou e me cobrou: "entao vamos tomar café e pegar o lixo, é vero?" 

Colocamos as luvas e as mascaras e partimos. Recolhemos um saco de 120 litros de muito lixo. Durante todo o tempo Matteo esteve engajado com a missao de "nao destruir a natureza e acabar com o coronavirus o quanto antes".   

Quando finalmente chegamos no inicio do bosque, encontramos um senhor que estava cuidando de suas plantaçoes de frutas, verduras e flores. Quando ele viu o Matteo concentrado em pegar até papel de bala do chao, recolheu um bouquet de flores de seu jardim e deu de presente para ele, como forma de agradecimento pelo seu gesto.


Se antes o Matteo achava que aquela era a coisa certa a ser feita, naquele momento passou a ter certeza do quanto linda e importante era a sua atitude. 



Sem exagero, foram duas horas de conversa profunda, em que ele estava totalmente sensibilizado, a ponto de em alguns momentos nao parecer uma criança de 4 anos, mas um pequeno ativista. Naquele dia, além de orgulho, senti uma conexao surreal com ele, com a natureza, com o mundo e comigo mesma.

De algum modo eu tive uma pequena participaçao, fiz meu papel de mae, mas acima de tudo o que ficou muito claro para mim é que o mundo esta nas maos deles. Tao pequenos e ao mesmo tempo tao grandes. Sem sombra de duvida, eles sao melhores do que nòs eramos, eles sao o futuro... 

Um brinde a eles...

Um brinde a voce Matteo, amor de nossas vidas!




30/04/2020

Tempos de Lockdown

No ultimo domingo (26 de Abril) o premier da Italia, Giuseppe Conte, anunciou que o Pais retomarà suas atividades gradualmente, começando em 4 de maio, quando começarao a abrir os setores essenciais da economia. As outras atividades seguirao abrindo em 18 de maio e 01 de junho, com exceçao das escolas e creches que permanerao fechadas até pelo menos Setembro. A reduçao em todas as estatisticas (mortes, doentes na UTI, doentes hospitalizados com sintomas mais leves) nao somente começa a nos dar a possibilidade de voltar ao trabalho - sem causar um colapso no sistema sanitario - , como nos permite sair de casa, fazer um passeio, ir aos parques, entre outros, obviamente seguindo inumeras regras de distanciamento social estabelecidas pelo governo. 

Vale lembrar que nòs estamos em quarentena desde 09 de Março. Jà o Matteo esta trancado em casa desde 24 de fevereiro, com exceçao de algumas poucas vezes que nòs o levamos ao bosque - que fica a 300 metros de casa - para gastar um pouco de energia. Até seu aniversario foi somente com nòs tres em casa, sem poder interagir com nenhuma outra criança. Entao, parece um sonho imaginar sair para dar uma volta no lago e ver pessoas, mesmo sabendo que a partir de agora teremos que nos adaptar a uma nova realidade. 






Sabemos que esta segunda fase esta longe de representar a nossa liberdade ou a volta para a nossa ex-rotina e que inclusive provavelmente aquela rotina nao existirà mais, no entanto agora, ao menos podemos começar a enxergar uma luz no fim do tunel.

O lado bom dessas quarentenas é que querendo ou nao elas trouxeram muito para a sociedade. Aos mais introspectivos trouxe reflexao sobre muitos aspectos pessoais, espirituais e profissionais. Aos que nao gostam de pensar muito e preferem ser direcionados em suas opinioes trouxe polemica inutil e discussao sobre partidos politicos, muitas vezes sem pé nem cabeça. O coronavirus e a quarentena fizeram com que muitas 'mascaras' caissem, mas tambem com que pudessemos ser surpreendidos positivamente. Em meio a tanta superficialidade, algumas coisas essenciais vieram à tona: o amor, a solidariedade, a uniao, o respeito às regras incomodas impostas pelo governo, mas que foram seguidas porque seriam o unico modo de vencer o inimigo. A estrada ainda è longa, mas jà é alguma coisa.

Felizmente em Março tive a possibilidade de continuar trabalhando por tres semanas, quase o tempo todo em home office. Trabalhar em meio a crise estava sendo otimo psicologicamente e até mesmo como produtividade (o que me surpreendou ja que eu nunca tinha feito home office), mas com a exigencia da empresa de entrarmos em férias coletivas, acabei perdendo um pouco o foco e o entusiasmo. 

Se antes eu conseguia trabalhar full time, fazer 1 hora de atividade fisica, cuidar da casa e do Matteo, com as 'férias' passei a primeira semana inteira em estado vegetativo e depressivo, sem ter vontade de fazer nada, assistindo os telejornais que mostravam o tempo todo essa tragédia sem fim. Até que um dia, apòs uma crise de choro que eu e Marcelo tivemos refletindo sobre todas as mortes e cenas horriveis como a dos caminhoes do exercito transportando caixoes para outras regioes por falta de lugar para enterrar tanta gente na Lombardia, decidimos limitar os telejornais em casa e seguir a vida de maneira mais leve.

Dai em diante, passei minhas tardes (Marcelo ainda sai para trabalhar) entre afazeres domesticos, liçoes com Matteo, exercicios fisicos diarios, meditaçao, contatos com amigos antigos, organizaçoes de gavetas, guarda-roupas, lavanderias, joias, missoes gastronomicas e muita, muita Netflix. Fomos dormir muitas vezes de madrugada, substituimos a pizza de sexta-feira a noite pelo almoço de terça-feira, assistimos lives musicais, exercitamos nosso talento criativo, pintando e desenhando. Nos exercitamos novamente, meditamos novamente, organizamos novamente e passamos horas e horas na preguiça esperando a coragem para ler um livro ou mesmo escrever aqui no blog.
 




Neste tempo descobri e estou descobrindo muito sobre mim, sobre quem sou e sobre como reajo em meio as situaçoes totalmente incertas, das quais nao tenho controle. Descobri o que è ser mae 24 horas por dia (nao é facil), de como é dificil educar sem o auxilio da escola (porque isso significa realmente educar sem pausa) e sem poder sair de casa para respirar ou gastar um pouco de energia. Em todo esse periodo pude perceber ainda mais que minha familia nao poderia ser outra, que estou onde deveria estar. Descobri que nao existe nada melhor do que receber no meio da tarde um beijo molhado e um abraço apertado, sem que voce espere. E nos momentos em que me sentia para baixo, eles eram a razao de eu olhar para frente.  

Descobri neste tempo quem sao as pessoas que realmente estao ao nosso lado e de quem estamos ao lado. Em meio a tanta superficialidade, veio a tona a essencia!

Em meio ao caos sobreviveu somente o essencial e o essencial é agora, nao é amanha...

23/03/2020

Reflexao Coronavirus

Em época de coronavirus, em que o mundo inteiro esta prestes a entrar em Quarentena, nòs - que até entao estavamos vivendo uma  rotina mecanica, sem tempo para nada e deixando em segundo plano valores como o da famila - ganhamos de presente um tempo  para refletir e repensar o modo de viver e as nossas escalas de valores.

Nòs, que muitas vezes deixamos de viver o presente, para postarmos nas redes sociais, que deixamos de pensar com profundidade para, em muitas ocasioes, viver a superficialidade. Nòs mesmos... cada um de nòs agora passa a ter a possibilidade de rever, de voltar para dentro de si e enxergar, de compartilhar momentos reais e de valorizar a liberdade que neste momento estamos perdendo, aquela de sair para apreciar o mundo. 

Faz tres meses que começamos a ouvir falar em coronavirus. Ele, que chegou de maneira discreta, com as vestes de uma simples gripe - mais forte entre idosos e doentes - em poucas semanas ganhou abrangencia internacional e a atençao maxima dos mais importantes infectologistas, medicos, pesquisadores e governos do mundo.  Foi tudo muito rapido: os contagios além das fronteiras, os doentes, os exames, o fim dos leitos de UTI disponiveis e o bloqueio praticamente total da Italia.



Imagem BBC


Isto mesmo, a Italia parou e em seguida varios paises europeus como Espanha, França, Suiça e Holanda, também anunciaram o inicio da Quarentena. Até Trump declarou estado de emergencia nos EUA e o virus, atè entao conhecido como uma gripe - mais fatal para idosos e doentes - foi oficialmente considerado pela OMS uma pandemia.


E' verdade, os sintomas eram de uma gripe, até que muita gente começou a adoecer e morrer. Enquanto as mortes estavam acontecendo na China, parecia se tratar de uma catastrofe distante, como quando ouvimos falar de um tsunami ou um furacao que aconteceram em uma ilha na qual nunca estivemos.  Entao, do nada tudo começou a acontecer aqui do lado... wow... na Italia, França, Espanha...

Mesmo assim, ele continua sendo subestimado por muitos governos, e consequentemente, pela populaçao de diversas naçoes. Sociedades alienadas, sem senso critico e bom senso, que ainda veem o Covid19 como um problema da China, da Italia ou em geral da ‘velha’ Europa. Sociedades estas que nao perceberam até hoje a relevancia das atitudes individuais, de respeitar regras de socializaçao e de higiene para reduzir a possibilidade de contagio. Sociedades que nao assumiram suas responsabilidades.

Os proprios brasileiros demoraram para entender a gravidade. Enquanto em grande parte da Italia ja nao existia mais leito de UTI e as ruas da regiao de Bergamo eram invadidas por caminhoes do exercito – que transportavam caixoes para outros cemiterios, por nao ter mais para onde levar os corpos –, no Brasil todos continuavam suas vidas normalmente, curtindo o carnaval, indo para praias, festas, etc.

Quando finalmente o brasileiro compreendeu a emergencia que o mundo estava enfrentando, passando a interiorizar  um novo conceito de socializaçao e começando uma quarantena considerata imprescindivel pela OMS, aparece o Presidente Jair Bolsonaro, alegando se tratar de um resfriadinho e pedindo para que a populaçao – com exceçao de idosos e doentes – voltasse à normalidade. Tudo como se os jovens e as crianças nao transmitissem o virus aos pais ou avòs e como se o coronavirus escolhesse a dedo a idade das vitimas. Claro que é comprensivel que um Governo tenha como interesse proteger a economia, mas uma economia saudavel precisa de pessoas saudaveis. Nada è mais importante que a vida humana e neste caso lamentavelmente o povo brasileiro parece estar jogado à deriva, senza nenhum apoio efetivo do Estado.

Vale dizer que a principio o mesmo erro ocorreu na Italia. Por um bom tempo depois do surgimento dos primeiros casos, as empresas continuaram a realizar eventos, os jogos em estadios permaneceram lotados, as festas continuaram, assim como os encontros em bares e restaurantes, os aperitivos e os transportes lotados, sem as precauçoes basicas como uso de mascaras ou luvas. Sò que de repente, os numeros começaram a duplicar e nao deu mais para fazer de conta que tudo estava normal, ao menos na Italia.

O governo começou a sua série de medidas de precauçao cancelando as aulas em todo o Pais. As açoes seguintes foram mais radicais e de grande impacto economico, mas necessarias para podermos começar a sonhar com o fim de um virus, que a cada dia se multiplica agressivamente pelo mundo.

Na Italia foram instituidas normativas nacionais, que proibiram a livre circulaçao dos cidadaos por todo o País, exceto em caso de necessidade, doença e trabalho. Bares, restaurantes, shoppings, academias, escolas... tudo foi fechado sem tempo determinado para voltar à normalidade. O governo apelou para que todos ficassem em casa. Médicos e diretores dos hospitais passaram a implorar nos telejornais para que a populaçao nao saisse de casa, alegando nao ter mais vaga em UTI e explicando que foi ativado um protocolo que diz que em caso de indisponibilidade de leito na UTI, o médico terá que escolher qual paciente salvar. Neste caso salvarà o paciente mais forte, com mais chances de sobreviver.

Sendo assim os italianos, ao menos a maior parte, passaram a seguir as orientaçoes do governo,  se locomovendo somente para urgencias ou necessidade de trabalho com a devida  autocertificaçao.

Já na primeira semana de confinamento tudo começou a mudar. O comportamento das pessoas mostrou que a unica coisa que realmente importa sao os valores (seja do individuo que da empresa), a profundidade e o entretenimento. Muito provavelmente estamos no inicio de uma nova era, em que nada mais será como antes. Nestes poucos meses houve uma grande aceleraçao cultural em vários aspectos e países, desde a necessidade de se adequar ao smart working  (até entao impensável para inúmeras empresas), até a necessidade de os profissionais adaptarem suas estratégias e trabalhos com agilidade e criatividade.

Neste novo momento as futilidades perdem espaço e passam a emergir somente os talentos. 

Passa-se a compreender, entao, que cada um tem algo para compartilhar, descobrem-se hobbies e principalmente que é possivel ser criativo e presente, mesmo estando distante fisicamente. Basta navegar pelas redes sociais e ver a quantidade de Lives de yoga, de musica e de arte, que tem sido realizados na ultima semana. As pessoas agora nao querem consumir produtos que nao sejam de primeira necessidade, nem se interessam em ver uma bela influencer pousando para uma foto de lançamento de um produto. As palavras da vez passam a ser Ser Humano, Essência, Profundidade e  Entretenimento. 

Isto é só o começo. Ainda tem muita agua para rolar e como jà dizia o poeta Raul Seixas 

"Foi assim
No dia em que todas as pessoas
Do planeta inteiro
Resolveram que ninguém ia sair de casa
Como que se fosse combinado em todo
O planeta
Naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém"


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O dia em que a terra parou

Essa noite eu tive um sonho
De sonhador
Maluco que sou, eu sonhei
Com o dia em que a Terra parou
Com o dia em que a Terra parou
Foi assim
No dia em que todas as pessoas
Do planeta inteiro
Resolveram que ninguém ia sair de casa
Como que se fosse combinado em todo
O planeta
Naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém ninguém
O empregado não saiu pro seu trabalho
Pois sabia que o patrão também não tava lá
Dona de casa não saiu pra comprar pão
Pois sabia que o padeiro também não tava lá
E o guarda não saiu para prender
Pois sabia que o ladrão, também não tava lá
E o ladrão não saiu para roubar
Pois sabia que não ia ter onde gastar
No dia em que a Terra parou (êê)
No dia em que a Terra parou (ôô)
No dia em que a Terra parou (ôô)
No dia em que a Terra parou

E nas Igrejas…