23/03/2020

Reflexao Coronavirus

Em época de coronavirus, em que o mundo inteiro esta prestes a entrar em Quarentena, nòs - que até entao estavamos vivendo uma  rotina mecanica, sem tempo para nada e deixando em segundo plano valores como o da famila - ganhamos de presente um tempo  para refletir e repensar o modo de viver e as nossas escalas de valores.

Nòs, que muitas vezes deixamos de viver o presente, para postarmos nas redes sociais, que deixamos de pensar com profundidade para, em muitas ocasioes, viver a superficialidade. Nòs mesmos... cada um de nòs agora passa a ter a possibilidade de rever, de voltar para dentro de si e enxergar, de compartilhar momentos reais e de valorizar a liberdade que neste momento estamos perdendo, aquela de sair para apreciar o mundo. 

Faz tres meses que começamos a ouvir falar em coronavirus. Ele, que chegou de maneira discreta, com as vestes de uma simples gripe - mais forte entre idosos e doentes - em poucas semanas ganhou abrangencia internacional e a atençao maxima dos mais importantes infectologistas, medicos, pesquisadores e governos do mundo.  Foi tudo muito rapido: os contagios além das fronteiras, os doentes, os exames, o fim dos leitos de UTI disponiveis e o bloqueio praticamente total da Italia.



Imagem BBC


Isto mesmo, a Italia parou e em seguida varios paises europeus como Espanha, França, Suiça e Holanda, também anunciaram o inicio da Quarentena. Até Trump declarou estado de emergencia nos EUA e o virus, atè entao conhecido como uma gripe - mais fatal para idosos e doentes - foi oficialmente considerado pela OMS uma pandemia.


E' verdade, os sintomas eram de uma gripe, até que muita gente começou a adoecer e morrer. Enquanto as mortes estavam acontecendo na China, parecia se tratar de uma catastrofe distante, como quando ouvimos falar de um tsunami ou um furacao que aconteceram em uma ilha na qual nunca estivemos.  Entao, do nada tudo começou a acontecer aqui do lado... wow... na Italia, França, Espanha...

Mesmo assim, ele continua sendo subestimado por muitos governos, e consequentemente, pela populaçao de diversas naçoes. Sociedades alienadas, sem senso critico e bom senso, que ainda veem o Covid19 como um problema da China, da Italia ou em geral da ‘velha’ Europa. Sociedades estas que nao perceberam até hoje a relevancia das atitudes individuais, de respeitar regras de socializaçao e de higiene para reduzir a possibilidade de contagio. Sociedades que nao assumiram suas responsabilidades.

Os proprios brasileiros demoraram para entender a gravidade. Enquanto em grande parte da Italia ja nao existia mais leito de UTI e as ruas da regiao de Bergamo eram invadidas por caminhoes do exercito – que transportavam caixoes para outros cemiterios, por nao ter mais para onde levar os corpos –, no Brasil todos continuavam suas vidas normalmente, curtindo o carnaval, indo para praias, festas, etc.

Quando finalmente o brasileiro compreendeu a emergencia que o mundo estava enfrentando, passando a interiorizar  um novo conceito de socializaçao e começando uma quarantena considerata imprescindivel pela OMS, aparece o Presidente Jair Bolsonaro, alegando se tratar de um resfriadinho e pedindo para que a populaçao – com exceçao de idosos e doentes – voltasse à normalidade. Tudo como se os jovens e as crianças nao transmitissem o virus aos pais ou avòs e como se o coronavirus escolhesse a dedo a idade das vitimas. Claro que é comprensivel que um Governo tenha como interesse proteger a economia, mas uma economia saudavel precisa de pessoas saudaveis. Nada è mais importante que a vida humana e neste caso lamentavelmente o povo brasileiro parece estar jogado à deriva, senza nenhum apoio efetivo do Estado.

Vale dizer que a principio o mesmo erro ocorreu na Italia. Por um bom tempo depois do surgimento dos primeiros casos, as empresas continuaram a realizar eventos, os jogos em estadios permaneceram lotados, as festas continuaram, assim como os encontros em bares e restaurantes, os aperitivos e os transportes lotados, sem as precauçoes basicas como uso de mascaras ou luvas. Sò que de repente, os numeros começaram a duplicar e nao deu mais para fazer de conta que tudo estava normal, ao menos na Italia.

O governo começou a sua série de medidas de precauçao cancelando as aulas em todo o Pais. As açoes seguintes foram mais radicais e de grande impacto economico, mas necessarias para podermos começar a sonhar com o fim de um virus, que a cada dia se multiplica agressivamente pelo mundo.

Na Italia foram instituidas normativas nacionais, que proibiram a livre circulaçao dos cidadaos por todo o País, exceto em caso de necessidade, doença e trabalho. Bares, restaurantes, shoppings, academias, escolas... tudo foi fechado sem tempo determinado para voltar à normalidade. O governo apelou para que todos ficassem em casa. Médicos e diretores dos hospitais passaram a implorar nos telejornais para que a populaçao nao saisse de casa, alegando nao ter mais vaga em UTI e explicando que foi ativado um protocolo que diz que em caso de indisponibilidade de leito na UTI, o médico terá que escolher qual paciente salvar. Neste caso salvarà o paciente mais forte, com mais chances de sobreviver.

Sendo assim os italianos, ao menos a maior parte, passaram a seguir as orientaçoes do governo,  se locomovendo somente para urgencias ou necessidade de trabalho com a devida  autocertificaçao.

Já na primeira semana de confinamento tudo começou a mudar. O comportamento das pessoas mostrou que a unica coisa que realmente importa sao os valores (seja do individuo que da empresa), a profundidade e o entretenimento. Muito provavelmente estamos no inicio de uma nova era, em que nada mais será como antes. Nestes poucos meses houve uma grande aceleraçao cultural em vários aspectos e países, desde a necessidade de se adequar ao smart working  (até entao impensável para inúmeras empresas), até a necessidade de os profissionais adaptarem suas estratégias e trabalhos com agilidade e criatividade.

Neste novo momento as futilidades perdem espaço e passam a emergir somente os talentos. 

Passa-se a compreender, entao, que cada um tem algo para compartilhar, descobrem-se hobbies e principalmente que é possivel ser criativo e presente, mesmo estando distante fisicamente. Basta navegar pelas redes sociais e ver a quantidade de Lives de yoga, de musica e de arte, que tem sido realizados na ultima semana. As pessoas agora nao querem consumir produtos que nao sejam de primeira necessidade, nem se interessam em ver uma bela influencer pousando para uma foto de lançamento de um produto. As palavras da vez passam a ser Ser Humano, Essência, Profundidade e  Entretenimento. 

Isto é só o começo. Ainda tem muita agua para rolar e como jà dizia o poeta Raul Seixas 

"Foi assim
No dia em que todas as pessoas
Do planeta inteiro
Resolveram que ninguém ia sair de casa
Como que se fosse combinado em todo
O planeta
Naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém"


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O dia em que a terra parou

Essa noite eu tive um sonho
De sonhador
Maluco que sou, eu sonhei
Com o dia em que a Terra parou
Com o dia em que a Terra parou
Foi assim
No dia em que todas as pessoas
Do planeta inteiro
Resolveram que ninguém ia sair de casa
Como que se fosse combinado em todo
O planeta
Naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém ninguém
O empregado não saiu pro seu trabalho
Pois sabia que o patrão também não tava lá
Dona de casa não saiu pra comprar pão
Pois sabia que o padeiro também não tava lá
E o guarda não saiu para prender
Pois sabia que o ladrão, também não tava lá
E o ladrão não saiu para roubar
Pois sabia que não ia ter onde gastar
No dia em que a Terra parou (êê)
No dia em que a Terra parou (ôô)
No dia em que a Terra parou (ôô)
No dia em que a Terra parou

E nas Igrejas…