30/04/2020

Tempos de Lockdown

No ultimo domingo (26 de Abril) o premier da Italia, Giuseppe Conte, anunciou que o Pais retomarà suas atividades gradualmente, começando em 4 de maio, quando começarao a abrir os setores essenciais da economia. As outras atividades seguirao abrindo em 18 de maio e 01 de junho, com exceçao das escolas e creches que permanerao fechadas até pelo menos Setembro. A reduçao em todas as estatisticas (mortes, doentes na UTI, doentes hospitalizados com sintomas mais leves) nao somente começa a nos dar a possibilidade de voltar ao trabalho - sem causar um colapso no sistema sanitario - , como nos permite sair de casa, fazer um passeio, ir aos parques, entre outros, obviamente seguindo inumeras regras de distanciamento social estabelecidas pelo governo. 

Vale lembrar que nòs estamos em quarentena desde 09 de Março. Jà o Matteo esta trancado em casa desde 24 de fevereiro, com exceçao de algumas poucas vezes que nòs o levamos ao bosque - que fica a 300 metros de casa - para gastar um pouco de energia. Até seu aniversario foi somente com nòs tres em casa, sem poder interagir com nenhuma outra criança. Entao, parece um sonho imaginar sair para dar uma volta no lago e ver pessoas, mesmo sabendo que a partir de agora teremos que nos adaptar a uma nova realidade. 






Sabemos que esta segunda fase esta longe de representar a nossa liberdade ou a volta para a nossa ex-rotina e que inclusive provavelmente aquela rotina nao existirà mais, no entanto agora, ao menos podemos começar a enxergar uma luz no fim do tunel.

O lado bom dessas quarentenas é que querendo ou nao elas trouxeram muito para a sociedade. Aos mais introspectivos trouxe reflexao sobre muitos aspectos pessoais, espirituais e profissionais. Aos que nao gostam de pensar muito e preferem ser direcionados em suas opinioes trouxe polemica inutil e discussao sobre partidos politicos, muitas vezes sem pé nem cabeça. O coronavirus e a quarentena fizeram com que muitas 'mascaras' caissem, mas tambem com que pudessemos ser surpreendidos positivamente. Em meio a tanta superficialidade, algumas coisas essenciais vieram à tona: o amor, a solidariedade, a uniao, o respeito às regras incomodas impostas pelo governo, mas que foram seguidas porque seriam o unico modo de vencer o inimigo. A estrada ainda è longa, mas jà é alguma coisa.

Felizmente em Março tive a possibilidade de continuar trabalhando por tres semanas, quase o tempo todo em home office. Trabalhar em meio a crise estava sendo otimo psicologicamente e até mesmo como produtividade (o que me surpreendou ja que eu nunca tinha feito home office), mas com a exigencia da empresa de entrarmos em férias coletivas, acabei perdendo um pouco o foco e o entusiasmo. 

Se antes eu conseguia trabalhar full time, fazer 1 hora de atividade fisica, cuidar da casa e do Matteo, com as 'férias' passei a primeira semana inteira em estado vegetativo e depressivo, sem ter vontade de fazer nada, assistindo os telejornais que mostravam o tempo todo essa tragédia sem fim. Até que um dia, apòs uma crise de choro que eu e Marcelo tivemos refletindo sobre todas as mortes e cenas horriveis como a dos caminhoes do exercito transportando caixoes para outras regioes por falta de lugar para enterrar tanta gente na Lombardia, decidimos limitar os telejornais em casa e seguir a vida de maneira mais leve.

Dai em diante, passei minhas tardes (Marcelo ainda sai para trabalhar) entre afazeres domesticos, liçoes com Matteo, exercicios fisicos diarios, meditaçao, contatos com amigos antigos, organizaçoes de gavetas, guarda-roupas, lavanderias, joias, missoes gastronomicas e muita, muita Netflix. Fomos dormir muitas vezes de madrugada, substituimos a pizza de sexta-feira a noite pelo almoço de terça-feira, assistimos lives musicais, exercitamos nosso talento criativo, pintando e desenhando. Nos exercitamos novamente, meditamos novamente, organizamos novamente e passamos horas e horas na preguiça esperando a coragem para ler um livro ou mesmo escrever aqui no blog.
 




Neste tempo descobri e estou descobrindo muito sobre mim, sobre quem sou e sobre como reajo em meio as situaçoes totalmente incertas, das quais nao tenho controle. Descobri o que è ser mae 24 horas por dia (nao é facil), de como é dificil educar sem o auxilio da escola (porque isso significa realmente educar sem pausa) e sem poder sair de casa para respirar ou gastar um pouco de energia. Em todo esse periodo pude perceber ainda mais que minha familia nao poderia ser outra, que estou onde deveria estar. Descobri que nao existe nada melhor do que receber no meio da tarde um beijo molhado e um abraço apertado, sem que voce espere. E nos momentos em que me sentia para baixo, eles eram a razao de eu olhar para frente.  

Descobri neste tempo quem sao as pessoas que realmente estao ao nosso lado e de quem estamos ao lado. Em meio a tanta superficialidade, veio a tona a essencia!

Em meio ao caos sobreviveu somente o essencial e o essencial é agora, nao é amanha...