22/05/2020

Surpresa de dia das mães...COVID?

Domingo, 10/05, foi dia das mães.


O dia foi delicioso, fizemos churrasco para comemorar, ganhei um presente lindo, conversamos com nossas famílias, com nossas mães, até que umas 19:30 começamos a nos sentir muito mal. Eu com forte falta de ar, febre, dor no corpo. Marcelo também estava com dores no corpo todo e febre.

Decidimos ligar no numero reservado para o COVID para nos informar sobre como proceder e para entender se poderíamos nos medicar. Eles imediatamente mandaram uma ambulância que chegou em casa em cinco minutos. A médica e a enfermeira entraram em casa como se estivessem em meio a uma epidemia de Ebola, eram muitas roupas, máscaras, luvas. A gente ve na TV mas ao vivo é meio assustador.



Matteo tinha dormido e o levamos para cima, o que foi ótimo pois no dia seguinte ele teria ficado muito mais preocupado e triste. Ali a enfermeira nos disse que seriamos levados para o hospital. Deixamos o Matteo com uma amiga e fomos, sò pedimos para irmos com o nosso carro, pois não teríamos como voltar para casa no final da consulta, até porque jà era quase meia noite.


La chegando fizemos inumeros exames (sangue, oxigenação, raio x, covid, tomamos antibiotico e soro, entre outros). A médica por um momento avaliou a possibilidade de internar os dois, o que não seria possível visto que teríamos que deixar Matteo com alguém por tempo indeterminado. Desta forma, a médica analisou os exames e viu que os glóbulos brancos do Marcelo estavam bem alterados, definindo assim por sua internação.  Eu, por minha vez, assinei um documento rejeitando a internação e voltei para casa. 


Ver Marcelo sendo levado, sem saber o que iria acontecer me deixou sem chão, sem conseguir raciocinar, sem nem menos saber como dizer ao Matteo que o pai dele ficaria longe por um tempo. Me lembrei daquele dia em que eu e Marcelo tivemos uma crise de choro pensando em como as famílias eram separadas de uma hora para outra pelos sintomas covid e eram internadas por umas três semanas antes de voltar para casa, sempre que voltassem.

La fora chovia muito, assinei minha alta, peguei a chave do carro sem conseguir pensar muito, ainda sob efeito do remédio, fui pagar o estacionamento e seguir o caminho de casa. Estava sozinha e me sentia sozinha, sem saber como seria e quando Marcelo poderia voltar.

A médica  disse que ele ficaria no minimo uma semana internado. Gelei, rezei, pedi e implorei...


Peguei o Matteo  na minha amiga e fui para casa. No dia seguinte eu não conseguia nem levantar da cama, aliàs passei uma semana muito ruim, com muita falta de ar, tosse, dor no corpo, mas graças ao Matteo eu tinha que seguir para poder cuidar dele e do basico em casa, preparar as roupas para a internação do Marcelo, que foi levada ao hospital por um grande amigo. 

O Marcelo ficou totalmente isolado em um quarto sem contato com ninguém. Ele fez muitos exames, entre os quais ressonância magnetica no Tórax e na cabeça para identificar o motivo de suas fortes dores de cabeça. Aos poucos ele foi melhorando. O resultado dos exames de covid deram negativo. Se internou no domingo de noite e saiu na quinta-feira graças ao resultado negativo e principalmente graças ao "Cara la de Cima". 

Finalmente Alta


Mesmo com o resultado dos exames, a nossa médica de família disse que poderia ser covid, que com uma carga viral muito baixa poderia não ser identificada no exame, por isso pediu para nos mantermos isolados. Ja no hospital não nos deram o mesmo tipo de orientação, disseram que não seria necessario isolamento. Nem eles sabem ao certo como proceder em um caso desses. 

Raramente adoecemos e quando isso acontece nunca é de uma hora para a outra e os dois juntos, o que faz com que eu pense que era covid sim. Pode ser somente uma infecção que tivemos, mas na atual circunstancia não importa mais. Agora estamos bem, eu ainda me canso facilmente e sinto falta de ar, mas nada que uma inalação não ajude. 

07/05/2020

Pérolas de um lockdown

O isolamento social tem se revelado o grande desafio dos ultimos tempos. Por todos os lugares sò se pensa e se fala nesta nova realidade. Tem aqueles que defendem a quarentena vertical, tem os que acreditam que somente uma quarentena horizontal ou um lockdown podem combater a pandemia e tem também aqueles que acham que é mais prudente manter tudo aberto "é melhor morrer de Covid19 do que de fome". Sao varias as opinioes e muitos os cenarios.

Como comentei anteriormente, aqui na Itàlia a nossa breve quarentena se transformou em um forte lockdown. Para quem trabalha no comércio, em bares e em restaurantes, por exemplo, a maior dificuldade tem sido sobreviver como empresa, pagar salàrios e até mesmo ter o suficiente para se manter durante esse periodo de restriçoes.

Jà para os mais sortudos, o desafio é conseguir manter o equilibrio, o otimismo e conter a ansiedade diante de toda esta insegurança. Nòs, neste momento, nos encaixamos no grupo dos sortudos e seguimos fazendo a nossa parte, buscando ser responsàveis em cada passo, em cada palavra e em cada atitude.

E é sobre uma gota dessa responsabilidade que eu gostaria de falar hoje. Eu quero registrar um dos momentos importantes para nòs durante o lockdown, algo que em dias normais da minha rotina de trabalho, provavelmente nao teria acontecido. Fizemos muitas coisas diferentes nos ultimos dois meses, mas teve uma que representou muito para mim, porque foi extremamente importante para o Matteo compreender um pouco do significado das palavras cidadania e responsabilidade social.




Aqui perto de casa (aproximadamente 200 metros) tem um bosque perfeito para fazer caminhadas. Um dia fui dar uma volta com Matteo (ele ja estava ha dois meses em casa) e nos deparamos com varios lixos jogados pelo chao (garrafas de plàstico, caixinhas de leite vazias, garrafas de cerveja, papel de bala etc). Naquele momento Matteo me perguntou se as pessoas nao assistiam jornal, se elas nao viam que jogar lixo no chao destroi a natureza, afasta os animais e faz com que o coronavirus nao và embora. Essas foram exatamente as palavras dele! Uma criança de somente 4 anos conseguiu chegar sozinho a uma conclusao que os marmanjos inuteis ainda nao sao capazes.

Entao eu sugeri ao Matteo que no dia seguinte pegassemos um saco e fossemos recolher todo aquele lixo, assim ao menos aquela parte da natureza nao seria destruida. No dia seguinte, Matteo acordou e me cobrou: "entao vamos tomar café e pegar o lixo, é vero?" 

Colocamos as luvas e as mascaras e partimos. Recolhemos um saco de 120 litros de muito lixo. Durante todo o tempo Matteo esteve engajado com a missao de "nao destruir a natureza e acabar com o coronavirus o quanto antes".   

Quando finalmente chegamos no inicio do bosque, encontramos um senhor que estava cuidando de suas plantaçoes de frutas, verduras e flores. Quando ele viu o Matteo concentrado em pegar até papel de bala do chao, recolheu um bouquet de flores de seu jardim e deu de presente para ele, como forma de agradecimento pelo seu gesto.


Se antes o Matteo achava que aquela era a coisa certa a ser feita, naquele momento passou a ter certeza do quanto linda e importante era a sua atitude. 



Sem exagero, foram duas horas de conversa profunda, em que ele estava totalmente sensibilizado, a ponto de em alguns momentos nao parecer uma criança de 4 anos, mas um pequeno ativista. Naquele dia, além de orgulho, senti uma conexao surreal com ele, com a natureza, com o mundo e comigo mesma.

De algum modo eu tive uma pequena participaçao, fiz meu papel de mae, mas acima de tudo o que ficou muito claro para mim é que o mundo esta nas maos deles. Tao pequenos e ao mesmo tempo tao grandes. Sem sombra de duvida, eles sao melhores do que nòs eramos, eles sao o futuro... 

Um brinde a eles...

Um brinde a voce Matteo, amor de nossas vidas!